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“Vir à seleção é motivo de dupla felicidade”

Abel Jochua fala da experiência de representar Moçambique

A chamada, pela primeira vez, à Seleção de Moçambique traduziu-se num momento de dupla felicidade. Ao orgulho por poder representar a equipa principal do seu país, Abel Jochua aliou uma razão ainda mais emocional: matar as saudades da mãe. O jogador, que está em Portugal há três anos, não havia ainda voltado à sua terra natal, estando desde então privado de ver a sua família. Ao ter conhecimento da pré-convocatória, Abel Jochua não quis criar ilusões e foi, por isso, surpreendido com a chamada de África. A história é contada pelo próprio que, a partir do estágio em Moçambique, falou-nos desta experiência. “Eu já tinha sido pré-convocado uma vez mas depois não integrei a lista final. Na altura, fiz planos e depois acabei desiludido, então desta vez nem criei expectativas. Quando soube que iria mesmo ser chamado lembrei-me imediatamente da minha mãe. Vir representar o meu país é, por si só, um motivo de alegria tremenda mas fiquei imensamente feliz porque sabia que era uma oportunidade para ver a minha mãe”, contou.

Depois de perder o pai, quando tinha apenas sete anos, o médio moçambicano construiu uma relação forte com a progenitora. Antes disso, era o pai quem o protegia sempre que Abel irritava a mãe. O motivo era o de sempre: a paixão do miúdo pela bola. “A minha mãe não gostava que eu jogasse, tinha medo que me magoasse e eu tinha de esconder as feridas para ela não me ralhar. Eu fugia de casa para jogar futebol. De manhã, o meu pai deixava-me umas moedas ao lado da minha cama e dizia que era para eu ir para o treino. Fazia isso às escondidas da minha mãe porque sabia que ela não concordava”, lembrou, emocionado.

Nesta viagem até à sua infância, Abel Jochua vê-se invadido pela saudade mas também pelo orgulho por “estar a vingar no futebol”. Um sentimento partilhado pela mãe que vê o seu menino partilhar o balneário com referências no seu país: “A minha mãe até chorou quando soube que eu ia jogar na seleção A de Moçambique, que ia treinar ao lado de jogadores que sempre foram a nossa referência. E ver-me aqui, num hotel com os melhores do nosso país, é o concretizar de um sonho de ambos”.

De apanha-bolas a colega de equipa

As origens humildes de Abel Jochua foram já aqui mencionadas mas há ainda várias estórias por contar. O jogador, que apresenta um discurso fluído e cativante, é o primeiro a querer partilhar, com um sorriso no rosto, alguns dos momentos do seu percurso. Que assim seja. “Um dos meus colegas aqui na Seleção, o Jeitoso, era meu vizinho de bairro. Ele era mais velho, obviamente, e eu era o apanha-bolas dele, era quem lhe levava as chuteiras para o campo. Na verdade, eu era o “escravo” dele. Então, quando eu cheguei, ele contou isto ao selecionador mas ele não acreditava, pensou que era mais uma brincadeira do Jeitoso. Mas não era, ele foi uma das minhas inspirações e eu ainda nem acredito que hoje jogo ao lado dele”.

O prazer da comida típica que quase faz esquecer o calor sufocante

Em tempos de pandemia, as rotinas de estágio sofreram algumas alterações. Os dias tornaram-se mais “monótonos” e as iniciativas que outrora se cumpriam deram lugar à solidão nos quartos. “O nosso dia-a-dia aqui é sempre igual. Com a Covid19 deixámos de poder visitar instituições como acontecia no passado. Além disso, não podemos sair nunca do hotel nem receber a visita da família. São dias mais monótonos mas também desta forma descansamos mais porque os treinos têm sido intensos. O campeonato estava parado então o selecionador tem procurado recuperar rapidamente a forma física de alguns jogadores”, começou por dizer. Os treinos intensos não são um problema para Abel mas a opinião é outra quando o tema é o clima: “O calor quase me mata. Já não estava habituado a treinar com temperaturas tão altas e nos primeiros dias custou-me imenso. O que vale é que hidratamos bem e também estamos a comer bem. Aqui, estou a aproveitar para matar saudades da comida moçambicana. Já pedi ao nutricionista para repetir o meu prato preferido, que é a Matapa (couve com amendoim), mas não podemos abusar porque aqui é tudo controlado”.

“Gosto de jogar simples”

Fã confesso de Iniesta, o vitoriano assume a superstição de ver jogos do craque espanhol minutos antes de entrar em campo para o aquecimento. O médio, que gosta “de jogar simples” define-se como “regular dentro de campo e responsável fora dele”. “Sou um jogador regular, certinho, que gosta de jogar simples. Não invento no passe, não complico o jogo. O meu ídolo sempre foi o Iniesta e ver jogos dele antes de entrar em campo ajuda-me a tentar fazer coisas parecidas, porque aquelas imagens ficam-nos na mente e eu tento reproduzir no jogo”, partilhou. A simplicidade dentro das quatro linhas segue em linha paralela à responsabilidade fora do campo. “Tive de me tornar uma pessoa responsável. Vim sozinho para Portugal e os primeiros dias foram muito duros. Chorei muitas vezes à noite porque sentia-me sozinho e, para piorar, a minha mãe não tinha telefone então ficava muito difícil falar e desabafar com ela”, lembrou naquele que foi o último tema abordado nessa entrevista e que nos faz voltar à personagem que marcou toda esta conversa: a mãe.